Recentemente, fomos surpreendidos por algumas das mais negativas e conflitantes notícias que a comunidade gamer pôde receber nos últimos dias. A PlayStation declarou oficialmente que, à partir de 2028, não fabricará mais seus jogos em mídias físicas. Além disso, ela também definiu que fechará as lojas digitais de PS3 e PS Vita até o fim deste ano.
Além dela, a Microsoft promoveu aumentos expressivos no preço dos consoles Xbox, chegando a ultrapassar US$100 em alguns modelos, além de cancelar diversos projetos, lutar para não fechar mais estúdios e prever demissões. Demissões continuam em diversos estúdios e a gente continua sem entender quando isso vai parar.
Já a Nintendo, anunciou aumento do preço do Nintendo Switch Online, além de consolidar no ano passado com Mario Kart World para Switch 2, o novo patamar de US$80 para alguns de seus lançamentos. Tendência que outras gigantes da indústria, como a Rockstar Games, também passaram a seguir. Aliás isso foi definitivamente sacramentado quando ela declarou que o aumento do Switch 2 não cobre todos os custos.

Como encaramos isso? Como observadores apenas, ou como consumidores, respondendo à isso?
Parece que a comunidade gamer tem cada vez só aceitado as péssimas notícias que mexem com nosso bolso e planos de entretenimento e não com o que ela realmente quer e que sempre deu força. Números de pesquisa mostram que alguns consumos neste mercado vem caindo e tendo péssimos meses ou semestres em comparacão aos anos 2000.
E se tem algo que justifica isso, é sobre as más decisões que a indústria tem tomado quando se fala em corte de custos ou opções de consumos e ela sempre diz que é em seu prol, consumidor. Mas não verdade, não é!
Há mais de vinte anos ouvimos a mesma justificativa: tudo isso é para melhorar nossa experiência. Foi assim com DLCs, microtransações, passes de temporada, aumento do preço dos jogos, redução das mídias físicas, fechamento de lojas digitais e agora com o avanço inevitável de um mercado cada vez mais fechado. A pergunta que fica é: “Em qual momento o consumidor realmente saiu ganhando?”

Quem está ganhando nessa?
Em 2025, o mercado global ultrapassou US$ 200 bilhões em receita pela primeira vez na história, estabelecendo um novo recorde, mesmo em um cenário de demissões, fechamento de estúdios e aumento de preços.
Só no PC, 58% da receita veio de microtransações em 2024.

Durante anos, fomos informados de que DLCs ajudariam a financiar jogos melhores. Depois vieram os passes de temporada. Em seguida, as microtransações. Depois os jogos de US$70. Agora, jogos de US$80. Assinaturas mais caras. Consoles mais caros. O discurso permanece o mesmo: tudo isso seria necessário para garantir a sustentabilidade da indústria.
Mas se a indústria nunca movimentou tanto dinheiro, por que o consumidor continua sendo chamado a pagar cada vez mais, enquanto vê estúdios fecharem, milhares de profissionais perderem seus empregos e cada vez menos opções de consumo?

Está na hora de dizer: NÃO!
Talvez tenha chegado a hora de a comunidade gamer lembrar que ela também faz parte dessa indústria. Não apenas como público, mas como quem a sustenta. Cada console vendido, cada jogo comprado, cada assinatura renovada e cada pré-venda realizada financiam as decisões que essas empresas tomarão amanhã.
Dizer ‘não’ não significa torcer contra a indústria ou desejar seu fracasso. Significa mostrar que existe um limite para aquilo que estamos dispostos a abrir mão. Lucro não deveria depender, continuamente, da perda de direitos, de opções ou da autonomia do consumidor.
Se uma empresa acredita que o único caminho para crescer é cobrar mais, oferecer menos e restringir cada vez mais a forma como consumimos seus produtos, talvez seja hora de o mercado responder da única maneira que realmente chama sua atenção: nossas escolhas de compra.

Nenhuma empresa muda porque comentários nas redes sociais mosstram indignação. Ela muda quando percebe que determinadas decisões deixam de fazer sentido comercial. E isso só acontece quando consumidores deixam claro, por meio de suas escolhas, que certos caminhos simplesmente não serão aceitos.
A indústria tem todo o direito de buscar lucro. O consumidor tem o mesmo direito de exigir que esse lucro não seja construído, continuamente, à custa da perda de escolhas, de direitos e de formas de consumir que fizeram parte da cultura dos videogames por décadas. Você ainda joga num console e quer continuar jogando. Você ainda compra e coleciona seus jogos fisicamente e não quer mudar isso. Você não quer mais fica alimentando novas formas de monetização.
Chegou a hora de a comunidade gamer entender que ela não é apenas espectadora dessa indústria. Ela é quem a sustenta. E quem sustenta um mercado também tem o direito de definir quais caminhos está disposto a aceitar.

Menos direitos?
Se continuarmos aceitando que cada novo problema da indústria seja resolvido com preços maiores, menos opções de consumo, menos direitos sobre aquilo que compramos e mais formas de monetização, estaremos dizendo, com nosso próprio dinheiro, que esse é o futuro que queremos para os videogames.
Não se trata de ser contra a evolução, contra o lucro ou contra a tecnologia. Trata-se de lembrar que evolução também deveria significar preservar escolhas, respeitar o consumidor e oferecer mais valor, e não apenas criar novas formas de cobrar por aquilo que já tínhamos.
Nenhuma indústria cresce sozinha. Ela cresce porque existe alguém disposto a acreditar nela. Durante décadas, fomos nós que fizemos isso. Agora, cabe a nós decidir que tipo de indústria queremos construir para as próximas gerações.
Se existe um momento para dizer “basta”, esse momento não acontece nos comentários das redes sociais. Ele acontece quando escolhemos onde investir nosso dinheiro. Porque, no fim, a linguagem que mais influencia qualquer mercado continua sendo a mesma: a escolha consciente do consumidor.





